terça-feira, outubro 18, 2005

Narcisismo




















Eduardo Luiz, “A Dama de Ouros”, óleo sobre tela (1972).

“Ter relações interindividuais sem ligação profunda, não se sentir vulnerável, desenvolver a sua independência afectiva, viver sozinho, tal seria o perfil de Narciso. O medo de ser decepcionado, o medo das paixões incontroladas, traduz ao nível do subjectivo o que Chr. Lasch chama the flight form feeling – a fuga diante do sentimento- processo que se manifesta tanto na protecção íntima como na separação, que todas as ideologias “progressistas” pretendem realizar, entre o sexo e o sentimento. Quando se prega o cool sex e as relações livres, quando se condenam o ciúme e a possessividade, trata-se de facto de o expurgar de toda a tensão emocional e de conseguir assistir a um estado de indiferença, de desprendimento, não só a fim de o indivíduo se proteger contra as decepções amorosas mas também contra os seus próprios impulsos que podem sempre ameaçar o seu equilíbrio interior. A libertação sexual, o feminismo, a propaganda trabalham para um mesmo fim: erguer barreiras contra as emoções e manter afastadas as intensidades afectivas. Fim da cultura sentimental, fim do happy end, fim do melodrama e emergência de uma cultura cool onde cada um vive no seu bunker de indiferença, ao abrigo das suas paixões e das dos outros “.

Gilles Lipovetsky (1989) (1983), A Era do Vazio. Lisboa: Relógio D’Água, p. 72.